Patrimônio Tatauí

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2020

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Havia eu chegado em Juazeiro, na primeira quinzena de março de 1977, quando se fechavam as comportas da Barragem de Sobradinho cujos efeitos traumáticos à população ribeirinha justificaram minha inserção nos trabalhos de preventiva organização popular nas terras de Francisco Pereira Rodelas. Antes mesmo de apresentar-me aos funcionários da secretaria da Faculdade de Agronomia do Médio São Francisco (FAMESF), Josefina Prado Lemos, então agente de pastoral da Diocese, convidou-me a testemunhar com ela a invasão que a água represada do Rio São Francisco impunha às ruas da velha cidade de Casa Nova. Mal chegados ao povoado de Papagaio, próximo ao distrito de Santana do Sobrado, populares informaram que os restos da velha aldeia sagrada Amoipirá onde se edificara a antiga cidade dos Viana não mais se poderia ver porque o Riacho do Mosquito inundara a estrada que lhe dava acesso. Disse-se a nós que agricultores de Sobradinho, Sento Sé e Casa Nova havia que se surpreenderam também com a água do lago artificial a invadir seu patrimônio material (propriedades, posses e benfeitorias) sem que lhes houvessem pago indenização qualquer. Havia um conflito homérico entre o que seria justo indenizar. Aos prepostos da empresa responsável pela construção da Barragem, quinquilharias seriam mais que suficientes para calar a voz dos insubordinados agricultores ribeirinhos. Dizia-se que melhor seria não estarem ocupando as terras das quais o progresso exigia melhor usufruto e rentabilidade econômica, cobrindo-as com as águas represadas do Velho Chico.

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KESTERING, Celito. Patrimônio Tatauí. São Carlos: Pedro & João Editores, 2020. 450 p.

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